quinta-feira, 31 de julho de 2008

A morte de um é tragédia. A morte de milhões é estatística.

Ouvi ontem uma notícia na TV sobre negros e gays, que cotidianamente são espancados em Florianópolis. Em contrapartida, é revoltante saber que a morte de uma garotinha que foi jogada de um prédio comove o país inteiro, tornando-se até assunto em sala de aula. O sensacionalismo transforma a morte de alguns em tragédia, enquanto desconsidera a de tantos outros. Numa palavra usada pelo comentarista da RBS, pude perceber o motivo por que não deveríamos nos preocupar com a violência na capital. Ele afirma que essas pessoas que sofrem violência são minoria. Como? Certamente ele não sai muito de casa, e não tem a mínima noção da diversidade sexual e étnica que constitui a sociedade atualmente. Hoje a notícia será esquecida, porque negro sofrendo maus tratos é tão habitual quanto ler um livro da quinta série sobre história do Brasil. A morte dos gays é justificável a partir da convicção de que “deus nosso senhor” criou o homem e a mulher para se reproduzirem. A banalização da violência é regra obrigatória para mantermos estampado esse sorriso no rosto todos os dias. A maioria das pessoas não consegue enxergar o discurso medíocre que aceita diariamente. Esse mesmo discurso transforma em estatística o sofrimento e a morte de daqueles que vivem num mundo moderno, globalizado, pós-punk, que querem ter suas idéias e atitudes respeitadas em 2008. Contudo, aparentemente, ainda estamos nas cavernas, na década de 50, ou pior, na Idade Média. Dane-se o trem-bala.


BANSKSY - bright on coppers

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Die Fälscher (um filme de Stefan Ruzowitzky, 2007)

Não gosto de colocar a culpa em alguém por causa dos males que atormentam minha vida e a sociedade onde eu vivo. Se um dia a minha esposa trair minha confiança eu terei que assumir parte da culpa, pois decidi por livre espontânea vontade casar-me com ela. Se alguém apressado furar a fila que estou enfrentando horas em pé - mesmo que tenha um motivo justificável - eu tenho direito de ficar irritado, não somente com a pessoa, mas comigo também, porque contribui para a perpetuação do jeitinho brasileiro. E como diria o cultuado capitão Nascimento: "você financia essa merda". Ah, isso é verdade, você, ele, eu, todos temos parcela de contribuição para a atual condição socio-política.

O tema responsabilidade já foi tratado neste blog em outros textos, mas essa pequena introdução é necessária para fundamentar a razão de eu ter gostado do filme alemão Die Fälscher (O falsário).

Adolf Burger, o personagem mais interessante do filme, de várias formas tenta boicotar o seu trabalho e o de seus colegas, com o objetivo de prejudicar o sucesso nazista na guerra contra os outros países. Salomon Sorowitschi, chefe do setor de falsificação de dinheiro, critica a ação de Burguer, que questiona qual a utilidade de ajudar os alemães; Sorowitsch responde que se caso não fizer o trabalho sujo pode certamente morrer. Seu colega irrita-se e brilhantemente manifesta em poucas palavras a grande moral do filme: Você acha a sua "vida" tão especial assim? Acha que sua existência no meio de toda essa podridão é mais importante do que quebrar a engrenagem desse sistema? Sorowitsch quer viver, nem que para isso precise colaborar com o regime nazista que o insulta de todas as formas e prolifera a violência contra a diversidade cultural e artística por onde passa.

É uma questão delicada. A nossa vida é a única coisa que nós realmente temos. Eu e a Aninha, minha namorada, já discutimos sobre isso várias vezes. Por um lado sabemos que não somos as últimas bolachas do pacote, claro que outras pessoas virão depois de nós, nossos filhos, as próximas gerações. Será que os que pensam como Salomon estão sendo extremamente egoístas? Será que os defensores de Burguer podem beirar ao fanatismo por uma causa, de forma tão radical quanto os inimigos que combatem?

Evidentemente temos dois pólos: O conservador que é consciente da brevidade existencial, que fará de tudo para manter-se vivo. E também notamos essa curiosa espécie de homem revoltado que prefere abdicar da própria vida em nome de valores que possam ajudar aqueles que sofrem.

A guerra não é necessariamente um evento isolado onde armas são disparadas ininterruptamente por meses. Ela pode ser silenciosa e rotineira. O nazismo (nacional socialismo) não acabou, apenas trocou de país. Hoje em dia a mídia nos "ajuda" a decodificar a violência contida no dia a dia, atualmente tudo é mais claro, mais exposto, porém, a maioria dos cidadãos insiste fechar os olhos, a maioria quer viver.
Eu sim; eu não.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

69

"qual o emblema da Liberdade alcançada?
não mais envergonhar-se de si mesmo."
(Nietzsche)


... sem introdução, meio e fim. não existe lógica na atitude de quem pretende bater na mão que pode acabar com a própria fome. todos que fazem parte do selvagerismo não usam letra maiúscula no começo de frases, eles não aceitam a diagonal, tampouco qualquer tipo de verticalização da sua plebe. a arte selvagem é indomável por natureza, odeia os civilizados de colarinho. o "comportamento" é rebelde e pretensioso. não há discurso, apenas atitudes selvagens, os que fazem parte do movimento não aceitam regras por obrigação, eles próprios são as regras e ir contra elas é o mesmo que não ser selvagem. aboliu-se o respeito a qualquer tipo de senhor, maltratamos os deuses. apenas cremos num mito: a Liberdade. moramos em casas sem fechaduras, qualquer um pode entrar, minha cabeça é o meu lar, e aqui não existe riqueza a roubar, somos todos pobres perante a dignidade humana. o sujeito está enterrado, o estado ainda brinca com seus botões, minha igreja está em chamas, o bom deus fugiu, minha família nuclear explodiu, um desastre cotidiano. ah, claro que sim! os selvagens não tem orientação sexual, eles nem opção tem, a razão lhes abandonou-os, só obedecem o seu próprio juízo, sempre mal intencionado. a selvageria nasceu quando o homem viu uma criança chorar e depois de humilhá-la com as palavras e olhares mais hostis, acertou três socos na barriga da inocente criatura e saiu andando calmamente, rindo, dançando feito macaco em rave. não há justiça, nem compaixão, o umbigo cresce cada dia mais e consequentemente torna-se mais evidente. a morte foi desvelada, percebam: os selvagens já nascem mortos. a ontologia da morte é simples. você apenas precisa morrer cada dia sem pensar em ter que viver novamente. pela primeira vez morrer transou com o ser, desse ato nasceram muitos filhos sem pátria. nós...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Plantão Morte 24hr

"Não há morte natural: nada do que acontece ao homem jamais é natural, pois sua presença questiona o mundo. Todos os homens são mortais: mas para cada homem sua morte é um acidente e, mesmo que ele conheça e a consinta, uma violência indevida" Simone de Beauvoir (Uma morte muito suave)

A morte para um policial é tão comum quanto o som do seu revolver. O médico certamente é mais que uma profissão; é acima de tudo um ser íntimo da morte. Existem diversos filósofos como Kierkegaard, Camus, Heidegger, que tratam com grande complexidade esse tema. Não são poucos os leitores que tentam encontrar nos mais variados campos do saber a compreensão deste assunto tão inquietante.

A pergunta que me perturba é: Será que para algum indivíduo que tem contato com a morte consegue se acostumar ao ponto de desenvolver uma consciência carpe diem radical? Duvido. O soldado mata por temer ser morto; o cristão cumpre com ardor sua doutrina desejando prolongar o máximo possível o dia que terá sua recompensa no paraíso; o crítico que debruçasse a pensar sobre o absurdo, questiona-se, escreve dezenas de obras sobre o mesmo tema, e não se suicida.

Porque falamos tanto de algo que é o avesso do ser? Ora, a morte é o não-ser em si. Parece-me óbvio que justamente por isso é que a morte é tão atraente. Ela é esperança, liberdade, ou melhor: Esse ato-final, a morte, é efetivamente o ultrapassar da barreira do finito.

Simone de Beauvoir, no livro Uma Morte Muito Suave, narra as últimas semanas de vida da sua velha mãe. Françoise de Beauvoir, viveu em uma França ultra conservadora na metade do século XX. Como nessa época o gozo existencial era muito mais e melhor aproveitado pelos homens que legitimavam sua liberdade, desrespeito, violência, e promiscuidade, por meio da tradição de gênero; essa mulher viveu pouco.

Até se casar, tinha trinta e cinco anos, pronta para expressar em plenitude a sua sexualidade, e vitalidade ao lado de um parceiro. O problema é que esse marido construiu para ela uma gaiola matrimonial, uma vitrine, pura manutenção de status social. Ele, passando os melhores anos nos cabarés, e ela presa em casa, a espera de alguma coisa além da formalidade superficial que o cotidiano robótico impõe a todos nós.

Com a morte de seu marido, Françoise volta a viver. Impressionante como pode existir tanto poder e verdade nessa afirmação. Aos cinquenta e poucos anos estava "livre" para receber as primeiras dores nas costas, doenças rotineiras e todo tipo de injustiça fisiológica que o ser humano depois de determinada idade tem que sofrer. Ela não se rendeu e, com fé inabalável arrumou diversas formas de ocupar a sua vida para afastar-se de pensamentos fatalistas.

Num dia como outro qualquer ela sofreu um acidente dentro de sua casa e, após ser internada num hospital, seus amigos e familiares acompanharam seus últimos dias. Cedo ou tarde, o dia de partir chegará. Mas até lá vamos flertar com o acaso, debochar da morte, puxar o saco da vida, bailar a felicidade de olhos fechados pra tristeza.

Edvard Munch - Morte (óleo sobre tela, 1895)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

SEVEN (filme)

"Os detetives de polícia Mills (Brad Pitt) e Somerset (Morgan Freeman) seguem as pistas de um serial killer (Kevin Spacey), que mata suas vítimas de acordo com os sete pecados capitais. O thriller de David Fincher conta também com a participação de Gwyneth Paltrow, no começo de sua carreira, interpretando Tracy, a esposa de Mills.."


Tive inúmeras oportunidades para assistir o filme SEVEN, do diretor David Fincher (Fight Club, Panic Room), mas teimava em adiar, talvez por preconceitos com relação a filmes policiais, receio de um thriller previsível, e por aí vai. Fiquei admirado com esse filme que conta a história de dois policiais "Pink & Cérebro" que tentam obsessivamente encontrar o culpado dos vários "assassinatos" que ocorrem uma semana antes de William Somerset se aposentar. Mills, o policial emocional, impulsivo, e brincalhão, é interpretado por Brad Pitt, que tem bons e mals momentos no filme. Em algumas cenas aquele jeitão bobo e sarcástico de agir e falar lembra bastante o Mickey (Snatch - porcos e diamentes) e Tyler Durden (Fight Club). De qualquer forma, sua atuação nas últimas partes da película nos motiva a admitir que ele, assim como o resto do elenco, fizeram um bom filme. O encerramento não poderia ser melhor, não apenas pela tenção provocada com a possibilidade da execução do serial killer pelas mãos de Mills, que não queria matá-lo para exercer sua autoridade de policial, mas sim como ser humano. Descrente das instituições que protege, ele buscava vingança acreditando estar fazendo a coisa certa, e, assim, dormir em paz, seja na prisão ou em sua própria cama. Interessante mesmo foi o dialogo entre John Doe (Kevin Spacey) e Mills, quando o primeiro respondeu a pergunta: "Porque matou aquelas pessoas inocentes"? John argumenta que nenhuma delas eram ingênuas, nem mesmo Mills era inocente, pois assim como ele, eu, você, todos nós, toleramos todo tipo de violência em nossa sociedade, e aceitamos passivamente. Você pode chamar essa violência de pecado, ou de opressão da classe dominante, mas se esse filme vale a pena ser assistido, a meu ver, é porque ele faz o observador refletir até que ponto nós somos responsáveis pelo mundo que vivemos, de que maneira podemos interferir na realidade objetiva e, se temos o direito de expressar nossa liberdade sabendo que a mesma pode ferir a dignidade alheia e ou quem sabe até mesmo tirar a vida de outro ser. Precisamos de radicalismo(s) e sair por aí matando geral? Não vejo dessa forma, acredito que o diretor também não.


Seven - Os Sete Crimes Capitais (1995)

» Direção: David Fincher
» Roteiro: Andrew Kevin Walker
» Gênero: Policial
» Origem: Estados Unidos
» Duração: 127 minutos
» Tipo: Longa
» Trailer: